Exército do Lula: a façanha de Janones pode atravessar fronteiras?

A mobilização que ajudou a reverter o resultado do primeiro turno virou referência para setores da esquerda internacional, mas exportar o método exige compreender as particularidades de cada país

Adamy Gianinni
Adamy Gianinni
Editor-chefe
Jornalista (DRT/MTE 6842/BA), Especialista em Gestão Pública e estudante de ADS. Unindo a sensibilidade da escrita à precisão da tecnologia, construo este portal como um espaço...
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Imagem ilustrativa de uma multidão fazendo o L com bandeiras do Brasil, Espanha, México e Argentina (Créditos: Adamy Gianinni)

A mobilização do Exército do Lula, criado e liderado por André Janones, entrou para a história da política brasileira ao contribuir para uma reviravolta eleitoral que parecia improvável. Depois da derrota no primeiro turno, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu reagir, conquistar a quarta vitória presidencial do petista e superar seus resultados anteriores em número de votos. Uma façanha que ultrapassou as fronteiras brasileiras e despertou o interesse de lideranças da esquerda internacional.

O gesto de fazer o L com os dedos, associado a Lula, passou a aparecer em manifestações políticas no exterior. O símbolo também ganhou novos significados, como liberdade e resistência à extrema direita. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, convidou Janones para colaborar em sua campanha eleitoral. Há ainda relatos de aproximações de outros setores da esquerda internacional interessados na experiência brasileira.

O interesse não é difícil de compreender. Em um cenário de avanço da direita radical, a campanha brasileira apresentou uma experiência de mobilização que combinou comunicação digital, participação popular e articulação de apoiadores. Mas o que funcionou no Brasil não necessariamente produzirá os mesmos resultados em outros países.

A primeira lição está na própria origem do movimento. O Exército do Lula ganhou força depois do resultado do primeiro turno e diante de um Congresso com expressiva presença da direita. O cenário acendeu um alerta entre setores da sociedade que temiam uma ampliação do poder do bolsonarismo nas instituições. A reação deixou de ser assunto exclusivo da militância partidária e alcançou artistas, fãs-clubes e pessoas que, mesmo sem entusiasmo pela candidatura petista, passaram a enxergar a eleição de Lula como uma maneira de impedir o avanço da extrema direita.

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Muitos eleitores, nessa conjuntura, não precisavam estar convencidos de todas as posições de Lula. Bastava considerar mais arriscada a vitória de Flávio Bolsonaro. A mobilização conseguiu transformar esse temor em participação política e aproximar grupos que nem sempre compartilham as mesmas convicções.

Janones soube explorar as redes sociais, mas não ficou restrito a elas. A estratégia estimulou o compartilhamento de conteúdos, a circulação de mensagens entre conhecidos e a mobilização fora das plataformas. Enquanto a disputa digital dependia das regras e dos algoritmos das grandes empresas de tecnologia, as conversas presenciais, o contato entre familiares e a articulação comunitária ampliavam a circulação das mensagens por caminhos mais difíceis de controlar.

Não se tratava apenas de fazer uma publicação alcançar milhões de pessoas. Era necessário transformar alcance em participação, estimular apoiadores a conversar com outros eleitores e levar a disputa política para além das telas. Essa combinação ajuda a explicar por que a experiência despertou interesse internacional.

O movimento também explorou as contradições do adversário. Propostas relacionadas à jornada de trabalho, à remuneração por hora e às mudanças nas regras trabalhistas entraram no debate sobre os direitos sociais. Declarações de Flávio Bolsonaro, episódios de sua trajetória política e o legado do governo de Jair Bolsonaro, sobretudo durante a pandemia de covid-19, também alimentaram a oposição à candidatura.

As críticas não dependiam necessariamente da criação de fatos novos. Podiam partir de declarações públicas, propostas conhecidas e controvérsias já existentes. Isso não elimina a necessidade de verificar cada informação, mas ajuda a compreender a lógica política da mobilização: colocar em evidência aquilo que poderia afastar eleitores do adversário e aproximá-los de uma candidatura vista como alternativa.

O desafio agora é saber se essa experiência pode ser adaptada a outras realidades. O sistema eleitoral brasileiro tem características próprias, entre elas o voto obrigatório. A abstenção no primeiro turno também representava uma oportunidade de mobilização. Parte da estratégia consistia em alcançar eleitores que não haviam comparecido às urnas e envolver os mais jovens na disputa.

A participação de idosos também chamou a atenção. Pessoas que precisavam de auxílio para chegar às seções eleitorais mobilizaram familiares e comunidades, enquanto outros eleitores passaram a enxergar a eleição como uma forma de defender direitos sociais, aposentadorias e políticas públicas. Esses comportamentos demonstram que uma campanha pode mobilizar diferentes gerações por razões distintas, reunidas em torno de um objetivo eleitoral comum.

Em outros países, as condições podem ser diferentes. O voto pode ser facultativo, os partidos podem ter estruturas distintas e a relação entre eleitores, sindicatos, movimentos sociais e plataformas digitais pode seguir outra dinâmica. Até mesmo a percepção sobre os riscos representados pela extrema direita varia conforme a história política de cada sociedade.

Por isso, exportar o Exército do Lula não significa simplesmente reproduzir o gesto do L ou copiar mensagens que funcionaram no Brasil. Significa compreender quais fatores produziram a mobilização, identificar os grupos que podem ser alcançados e adaptar a estratégia à realidade de cada país.

Janones tem diante de si um desafio que vai além de repetir uma campanha vitoriosa. Se o Exército do Lula pretende se tornar uma referência internacional, será necessário estudar cada contexto, compreender os sistemas eleitorais e encontrar formas de transformar comunicação em participação efetiva.

A experiência brasileira mostrou o potencial de uma mobilização que ultrapassou a militância tradicional e alcançou diferentes setores da sociedade em um momento de forte polarização. Resta saber até que ponto esse método pode atravessar fronteiras. O gesto pode ser o mesmo, mas as condições para mobilizar milhões de pessoas nunca são exatamente iguais.

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Jornalista (DRT/MTE 6842/BA), Especialista em Gestão Pública e estudante de ADS. Unindo a sensibilidade da escrita à precisão da tecnologia, construo este portal como um espaço de resistência intelectual e experimentação. Flamenguista, ciclista e cético convicto. Acredito na caridade como prática e na simplicidade como estilo de vida. “Questionar tudo, aprender sempre.”