(Créditos: Adamy Gianinni)

Entre o apito inicial e a falha estrutural: a Supercopa que escancarou problemas além do campo

No Mané Garrincha, Flamengo perdeu o título para o Corinthians, mas o futebol saiu ileso; já a organização, o transporte e a infraestrutura ficaram devendo

Adamy Gianinni
Adamy Gianinni
Editor-chefe
Sou jornalista e escritor. Estudei mídias digitais e gestão pública para entender como o poder se disfarça na tecnologia. Agora, no 2º semestre de Análise e...
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(Créditos: Adamy Gianinni)

A Supercopa Rei 2026 entre Flamengo e Corinthians, disputada no Estádio Mané Garrincha, foi muito mais do que uma decisão de título. Para quem veio de fora, especialmente em uma viagem relâmpago, o evento funcionou como um teste de resistência logística, paciência e, sobretudo, de transparência.

A jornada começou como tantas outras do futebol brasileiro fora do eixo do conforto. Viagem apertada, ingresso comprado de última hora, ida e volta no mesmo dia entre Goiânia e Brasília. Na rodoviária, o roteiro conhecido: atraso de ônibus, congestionamento já na chegada ao DF por causa de acidente e um veículo que parecia mais sobrevivente de arquivo morto do que transporte regular de passageiros. Clichê? Sim. Aceitável? Não.

No entorno do estádio, o cenário compensava. Um verdadeiro formigueiro humano. À direita, a Nação Rubro-Negra. À esquerda, a torcida corintiana. Rivalidade clara, separação organizada e clima de decisão. Fotos feitas, registros anotados e a opção racional de entrar cedo para evitar o gargalo das catracas com reconhecimento facial.

Foi aí que a noite resolveu testar o manual do improviso.

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Durante a vistoria, antes mesmo das catracas, o segurança barrou a entrada de um carregador portátil, um power bank recém-comprado justamente para garantir autonomia de bateria e viabilizar o trabalho jornalístico. O detalhe incômodo: o item não constava na lista de objetos proibidos no momento da compra do ingresso.

O argumento foi curto e padrão: “ordem recebida”. A supervisão repetiu o script. Enquanto isso, torcedores descartavam eletrônicos no lixo para não perder o jogo. Uma cena que diz muito sobre como decisões mal comunicadas empurram o consumidor para o prejuízo.

Após insistência, identificação como jornalista e apresentação da carteira da FENAJ, o carregador foi autorizado. Cabe destacar que eu não estava atuando como imprensa credenciada no evento, nem realizava cobertura oficial para qualquer veículo de comunicação. Estava no estádio como torcedor, utilizando o celular apenas para registros pessoais e jornalísticos independentes.

O problema não foi resolvido por regra, mas por exceção. E isso é grave. Informação de acesso não é detalhe operacional; é obrigação legal. Se o item é considerado risco, precisa constar claramente nas regras de venda. Do contrário, há falha de transparência e, sim, constrangimento evitável.

(Créditos: Adamy Gianinni)
(Créditos: Adamy Gianinni)

Dentro de campo, o Flamengo colaborou pouco com a própria noite. Jogou mal e perdeu. Arrascaeta acertou a trave. Lucas Paquetá perdeu um gol feito. Bruno Henrique parecia fora do tempo da jogada quando a bola cruzou a pequena área. Nada encaixou. A estreia de Paquetá ficou aquém do esperado e, goste-se ou não, final não aceita desculpa.

O calendário é pesado, o desgaste é real, mas os sinais de alerta já estavam acesos. A derrota para o Fluminense no Carioca e para o São Paulo no Brasileiro não foram acidentes isolados. São sintomas. Filipe Luís começou 2026 com números ruins e já perdeu um título. No Flamengo, isso não passa incólume. A paciência da torcida existe, mas é curta. Elenco caro cobra desempenho proporcional.

Fora das quatro linhas, ao menos o futebol deu exemplo. A saída do estádio foi tranquila. Na rodoviária, torcedores do Corinthians cantavam no meio dos flamenguistas, sem conflito. No ônibus, clima pacífico. Rivalidade restrita ao campo, como deveria ser sempre.

O que não funcionou, de novo, foi a infraestrutura. As operadoras Claro e Vivo simplesmente não deram conta. Mesmo com dois chips e alternância automática de dados, a conexão foi instável durante praticamente todo o jogo. Rede sobrecarregada em evento de grande porte não é surpresa, mas também não é justificativa. Planejamento existe para isso. Ou deveria.

Foi a primeira vez no Mané Garrincha. Também a primeira vez assistindo ao Flamengo presencialmente. A derrota frustrou, claro, mas a experiência de estar no meio da Nação Rubro-Negra não decepciona. É uma torcida que empurra, ocupa e faz diferença. Faltou apenas o detalhe mais simples e decisivo do futebol: a bola na rede.

No balanço final, o jogo terminou, o torcedor voltou para casa e o futebol cumpriu seu papel. Já a organização deixou lacunas. Informação falha, infraestrutura insuficiente e decisões improvisadas não podem ser normalizadas. Futebol é paixão, mas também é serviço. E serviço mal prestado precisa ser apontado. Sem grito, sem exagero. Só com o que os fatos mostram.

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Sou jornalista e escritor. Estudei mídias digitais e gestão pública para entender como o poder se disfarça na tecnologia. Agora, no 2º semestre de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, investigo o lado técnico da história. Escrevo sobre política, mídia e tecnologia com independência, ceticismo e zero paciência para o óbvio.