A direita bolsonarista entendeu antes da esquerda o poder das redes sociais para disseminar fake news, manipular narrativas e conquistar votos. Desde 2018, com a facada que considero fake, passou a explorar intensamente essas ferramentas para mobilizar eleitores e influenciar a opinião pública. A esquerda demorou a perceber que a disputa política também seria travada no ambiente digital.
Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por uma diferença apertada. Depois vieram as investigações sobre a trama golpista, os planos de assassinato de autoridades e os lamentáveis atos de 8 de janeiro de 2023. O bolsonarismo, porém, continuou se reorganizando, ampliando sua influência e disputando espaços de poder.
A estratégia não se limitou às eleições presidenciais. Passou pelas eleições municipais, pela conquista de prefeituras e câmaras de vereadores e pela mobilização de grupos conservadores nas eleições para conselhos tutelares. O alerta era claro: essa organização poderia resultar em uma bancada ainda maior no Congresso Nacional, capaz de dificultar a governabilidade e avançar sobre instituições como o Supremo Tribunal Federal.
A esquerda foi alertada, mas não deu a devida importância. O primeiro turno de 2026 evidenciou o tamanho do problema. Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. Na Câmara dos Deputados, o PL conquistou 121 cadeiras, enquanto a federação PT-PCdoB-PV elegeu 88 parlamentares.
O resultado confirmou o risco que eu vinha apontando: o bolsonarismo estava organizado para disputar não apenas a Presidência, mas também o controle do Congresso. Se a esquerda não compreendesse a dimensão desse movimento, poderia entregar à oposição força suficiente para bloquear medidas do governo e pressionar instituições democráticas.
Foi somente diante da possibilidade concreta de perder a eleição presidencial que a campanha de Lula passou a dar maior atenção à mobilização digital. Ana Elisa, deputada federal do PT por Minas Gerais e um dos nomes de destaque da comunicação política nas redes, ajudou a aproximar a campanha de públicos mais jovens. André Janones, por sua vez, mobilizou o Exército do Lula, canal no WhatsApp que ultrapassou 10 milhões de seguidores durante o segundo turno.
Na minha avaliação, Janones teve papel central nessa reação. A mobilização digital ajudou a ampliar o alcance das mensagens, estimular o compartilhamento de conteúdos e disputar a narrativa com o bolsonarismo. Mas não foi um movimento isolado.
Jovens foram às ruas, fã-clubes de artistas organizaram campanhas nas redes sociais e personalidades declararam apoio a Lula. Reportagens registraram a participação de mais de mil comunidades de fãs na mobilização digital, enquanto estudantes e voluntários organizaram manifestações e iniciativas de engajamento. A reação ultrapassou os limites da militância partidária tradicional.
Outro aspecto que merece destaque foi a participação de idosos. Imagens de filhos e netos carregando pais e avós com dificuldades de locomoção até os locais de votação circularam amplamente. São cenas que simbolizam o esforço de eleitores para participar de uma disputa que consideravam importante. Não é possível mensurar quantos votos essas mobilizações produziram, mas ignorar sua dimensão social seria um erro.
A mobilização também apareceu nos números. Lula cresceu 9,28 pontos percentuais em Goiás, o maior avanço entre os estados, embora tenha perdido no resultado final da unidade federativa. Em Minas Gerais, avançou 7,1 pontos e virou a disputa, conquistando 50,43% dos votos válidos. No Nordeste, ampliou sua vantagem.
Esses resultados não provam que as redes sociais foram responsáveis, sozinhas, pela virada. Mas, diante da dimensão da mobilização digital, das ações presenciais e do crescimento da participação eleitoral, considero impossível analisar o resultado sem dar a essas iniciativas um papel central.
A campanha de Flávio também cometeu erros que, na minha avaliação, contribuíram para o desgaste de sua candidatura. Entre os episódios que merecem análise estão o caso Ana Clara, as controvérsias envolvendo Willer Tomaz, o financiamento do filme Dark Horse, as questões relacionadas ao Banco Master, as declarações sobre a jornada de trabalho e a proposta de alteração constitucional.
A proposta de mudança na Constituição, em particular, foi um dos fatores que considero capazes de ampliar a reação de setores da sociedade contra o projeto bolsonarista. Já Pablo Marçal e Nikolas Ferreira contribuíram indiretamente para afastar eleitores. Marçal transformou a política em espetáculo, enquanto Nikolas publicou conteúdos sobre o Nordeste que foram contestados como enganosos. A repercussão dessas manifestações não permite quantificar seu impacto eleitoral, mas os episódios tem que ser considerados na análise da campanha.
A controvérsia sobre o transporte público no dia da votação também precisa ser examinada. Em Salvador, atrasos e redução da frota dificultaram o deslocamento de eleitores. A situação motivou uma mobilização por caronas solidárias e pedidos de ampliação do horário de votação. O ministro Cristiano Zanin, do STF, autorizou a prorrogação até as 19h nas seções que ainda estavam abertas.
Considero grave que uma eleição presidencial tenha chegado a esse ponto, com relatos de dificuldades de transporte em cidades importantes e uma decisão judicial tomada às vésperas do encerramento previsto. A situação levanta suspeitas de tentativas de interferência no processo eleitoral que precisam ser investigadas.
No fim, Lula venceu por 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos. Foi uma vitória importante, mas esteve longe de representar uma derrota definitiva do bolsonarismo. O PL continua com uma bancada expressiva, e a oposição mantém força política suficiente para dificultar a governabilidade.
A eleição também deixou uma lição para a esquerda. Não basta ter um candidato competitivo, programas sociais ou uma história política consolidada. É necessário disputar a comunicação digital de forma permanente, construir canais de mobilização, dialogar com a juventude e não abandonar o trabalho de base até a chegada da próxima campanha.
O bolsonarismo não começou a se organizar no primeiro turno de 2026. A esquerda sabia que esse movimento estava em curso, mas demorou a reagir. Lula quase perdeu a eleição, e a mobilização do segundo turno mostrou o que pode acontecer quando a sociedade se organiza para disputar o resultado.
Agora, a esquerda precisa se unir e trabalhar. Não pode esperar a próxima eleição para descobrir novamente a força das redes sociais. Como sempre digo: quem não se adapta às tecnologias acaba ficando para trás.
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