Crianças brincando com pipa e avião no campo ao entardecer (Créditos: Magnific)

Antes a gente vivia, hoje sobrevivemos

Uma reflexão sobre a infância que cresceu entre a rua, a televisão e a internet, e uma geração que viu o mundo mudar diante dos próprios olhos

Adamy Gianinni
Adamy Gianinni
Editor-chefe
Jornalista (DRT/MTE 6842/BA), Especialista em Gestão Pública e estudante de ADS. Unindo a sensibilidade da escrita à precisão da tecnologia, construo este portal como um espaço...
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Nada supera a alegria de correr livre pelo campo ao pôr do sol. Uma celebração pura da imaginação e da infância (Créditos: Magnific)

O avanço da tecnologia é, sem dúvida, um dos acontecimentos mais marcantes da história humana. Ela trouxe facilidades para o trabalho, para os estudos e para o lazer, permitiu avanços importantes na medicina, aproximou pessoas e tornou possível fazer em poucos segundos aquilo que, algumas décadas atrás, exigia horas, dias ou até viagens. Não há como negar os benefícios.

​Mas talvez toda grande transformação carregue consigo uma espécie de contrapeso. Aquilo que facilita também pode criar dependência. O que aproxima pode afastar. O que amplia o acesso à informação também pode produzir excesso. E aquilo que foi criado para economizar tempo pode acabar ocupando justamente todo o tempo que deveria ter sido economizado.

​É nesse ponto que a nostalgia começa a aparecer.

​Frequentemente se ouve alguém dizer que as décadas de 1980 ou 1990 foram as melhores. Talvez exista alguma razão para isso. Não necessariamente porque fossem décadas perfeitas, não eram, mas porque foram anos de transição. A tecnologia começava a mudar a vida das pessoas sem ainda dominar completamente a maneira como elas viviam.

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​A década de 1990 foi especialmente marcante nesse sentido. A televisão, o rádio, os jornais, as revistas, os videogames e a música ainda eram protagonistas do entretenimento. Ao mesmo tempo, uma novidade começava a entrar lentamente nas casas: a internet.

​Era uma internet completamente diferente. Não havia redes sociais como se conhece hoje. Não havia smartphones. Não havia vídeos curtos, streaming, aplicativos de banco, inteligência artificial ou uma tela permanentemente conectada ao bolso. A internet era discada, lenta e, para muita gente, cara. Conectar significava esperar. Às vezes era preciso dividir a linha telefônica com o telefone da casa. A conexão tinha começo e fim. Entrava-se na internet; depois, saía-se dela.

​E talvez seja justamente essa uma das diferenças mais importantes: a internet ainda era um lugar para onde se ia, não um lugar do qual nunca se saía.

​Em 1996, o UOL entrou no ar e se tornou um dos primeiros grandes portais de conteúdo do Brasil, reunindo notícias, bate-papo, arquivos de jornais, serviços e outros conteúdos. Naquela época, Yahoo!, Cadê, Altavista e outros buscadores e portais faziam parte de uma internet ainda pequena e experimental. O Google só surgiria oficialmente em 1998. O MSN Messenger chegaria em 1999, anunciando uma nova forma de conversar pela internet em tempo real. Até o vírus Melissa, em 1999, ajudaria a mostrar que aquele novo ambiente também teria seus próprios problemas.

​A internet prometia um futuro extraordinário, mas ainda não havia se tornado o centro da vida. Os telefones celulares também começavam a se popularizar. Eram aparelhos grandes, limitados e muito diferentes dos smartphones atuais; serviam principalmente para ligações e mensagens de texto.

​E havia os orelhões. Hoje parecem quase peças de museu, mas já foram parte da paisagem das cidades brasileiras. Uma ligação podia ser aguardada com ansiedade. Quando alguém ligava para a casa de um vizinho, alguém precisava correr para chamá-lo. Uma ligação inesperada podia mudar o humor de uma pessoa. Não existia a possibilidade de simplesmente abrir o WhatsApp e perguntar onde alguém estava. Era preciso esperar. E esperar fazia parte da vida.

​Enquanto a tecnologia começava a avançar, a infância continuava acontecendo do lado de fora: pipa, bola de gude, bandeira destacada, pique-esconde, bicicleta, futebol, rua, quintal, árvore. Em algumas regiões do interior, havia ainda córregos, riachos, cacimbas e açudes onde as crianças podiam se refrescar. Havia árvores para subir, terrenos para explorar e lugares que não precisavam de nenhuma estrutura artificial para se transformar em diversão.

​Um pedaço de madeira podia virar espada. Uma lata podia virar brinquedo. Uma rua podia virar campo de futebol. Uma árvore podia virar esconderijo. Não havia necessidade de comprar a experiência; era preciso inventá-la. E talvez esse seja um dos aspectos mais importantes quando se fala da infância daquela época: muitas brincadeiras dependiam da presença de outras crianças.

​Para jogar bandeira destacada, era preciso uma turma. Para jogar bola, era preciso uma turma. Para brincar de pique-esconde, era preciso uma turma. Para empinar pipa, bastava uma pipa, vento e algum espaço. A diversão não vinha pronta; era construída.

​Talvez por isso o tédio também tivesse outro significado. Quando não havia nada para fazer, era preciso descobrir alguma coisa para fazer. Hoje parece estranho imaginar uma criança simplesmente sem entretenimento disponível. Naquele tempo, isso era normal. E, muitas vezes, o tédio era justamente o começo da criatividade.

​Os anos 2000

​Para quem nasceu em 1990, como esta geração, a infância propriamente dita aconteceu principalmente nos anos 2000. E os anos 2000 já eram diferentes. A internet estava mais acessível. Ainda era limitada, ainda podia ser cara, ainda dependia de computador e conexão, mas começava a fazer parte da rotina.

​Foi a época dos blogs, das lan houses, do MSN, do Fotolog, do Orkut, dos fóruns, dos CDs, DVDs, pendrives e arquivos compartilhados. Era também a época do MegaUpload e do 4shared, entre tantos outros serviços que fizeram parte da história da internet daquela geração. Havia uma espécie de sensação de fronteira aberta. A internet ainda parecia um território novo.

​O Orkut se tornou um dos maiores símbolos dessa fase. A rede social era usada para manter contato com amigos, encontrar familiares, entrar em comunidades e conversar. Havia comunidades para praticamente tudo: escola, bairro, futebol, bandas, programas de televisão, jogos e as mais diversas manias coletivas. Era uma rede social que parecia mais social. Hoje isso pode soar estranho, mas naquela época ainda não existia a mesma pressão para transformar cada aspecto da vida em conteúdo.

​Não era necessário ser influenciador. Não era necessário produzir vídeos todos os dias. Não era necessário acompanhar métricas de alcance. Não havia algoritmo determinando o que deveria ser visto a cada segundo. A internet começava a entrar na vida, mas ainda não tinha tomado conta dela.

​E havia o videogame. O PlayStation 2 marcou profundamente aquela geração. Havia locadoras, casas de jogos, lan houses e tardes inteiras diante de uma televisão de tubo. Em 2004, Grand Theft Auto: San Andreas chegou ao PlayStation 2 e se tornou um dos grandes símbolos da cultura dos videogames daquela época. Para uma geração inteira, CJ, Los Santos, San Fierro, Las Venturas, bicicletas, carros, missões e códigos de trapaça fazem parte da memória afetiva.

​Mas havia uma curiosidade naquela infância: o mesmo menino que passava algumas horas jogando GTA San Andreas podia, no mesmo dia, sair de casa para jogar bola de gude. Podia empinar pipa, brincar de bandeira destacada, jogar pique-esconde ou bater uma pelada na rua com regras que só faziam sentido para quem estava participando. Podia subir em um umbuzeiro e passar uma tarde inteira fora de casa. A tecnologia existia, mas ainda havia vida suficiente do lado de fora. Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre aquela geração e a infância atual.

​Uma internet sem tanta cerca

​A internet dos anos 2000 também tinha outra característica: ainda estava construindo suas regras. Muita coisa acontecia em uma espécie de território pouco regulamentado. Isso não significa que crimes ou violações fossem permitidos, nunca foram. A diferença é que a legislação e os mecanismos de fiscalização ainda não acompanhavam a velocidade com que a internet se expandia.

​Baixar música, compartilhar arquivos, utilizar programas de troca de conteúdo e encontrar filmes em serviços que hoje parecem absurdos fazia parte do cotidiano de muitos usuários. Isso não tornava essas práticas automaticamente legais. A diferença estava na facilidade de fiscalização e na escala.

​Hoje existem mecanismos jurídicos e tecnológicos muito mais desenvolvidos. O Marco Civil da Internet só seria instituído em 2014, estabelecendo princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. Mais recentemente, em 2025, foi criado o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, estabelecendo regras específicas para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Isso diz muito sobre a transformação ocorrida: a internet deixou de ser novidade e virou infraestrutura.

​A notícia também tinha outro tempo

​Enquanto a internet crescia, a televisão continuava sendo uma das principais fontes de informação. Jornais impressos e revistas ainda tinham força. O rádio continuava presente. Havia bancas de jornal, revistas infantis, quadrinhos, revistas de música, revistas de televisão e todo tipo de publicação que hoje parece pertencer a outro mundo. Havia também a Playboy. Para muitos adolescentes daquela geração, era uma publicação que fazia parte daquele universo de bancas e revistas adultas (no Brasil, sua edição impressa deixou de circular em 2018, encerrando uma história que atravessou várias gerações).

​O jornal impresso tinha outra relação com o leitor. A notícia demorava, e talvez justamente por isso existisse uma expectativa diferente. O jornal chegava pela manhã. A revista tinha uma periodicidade. O rádio tinha horário. O programa de televisão tinha horário. A novela tinha horário. O desenho tinha horário. Se perdesse, perdeu.

​Não havia a possibilidade de assistir imediatamente, rever dez vezes, acelerar, pausar, compartilhar e comentar enquanto assistia. A notícia também precisava chegar até você; hoje ela aparece antes mesmo de ser procurada. E isso mudou completamente o jornalismo.

​O futebol também mudou

​Em 2002, o Brasil conquistou o pentacampeonato mundial. Para aquela geração, o futebol ainda tinha uma presença muito forte no cotidiano. A Copa era um acontecimento nacional. A camisa da seleção, a televisão, a rua, a escola e as conversas depois dos jogos faziam parte de uma experiência coletiva.

​O futebol, claro, nunca foi perfeito, mas havia uma sensação diferente. Jogadores eram acompanhados pelo que faziam dentro de campo e, cada vez mais, pelo que faziam fora dele. Hoje, entretanto, o jogador também precisa lidar com redes sociais, exposição permanente, comentários instantâneos, cortes de entrevistas, vídeos virais, publicidade e uma máquina de comunicação funcionando 24 horas por dia.

​A própria relação entre torcedores mudou. Vasco e Flamengo, por exemplo, não precisavam de Instagram para produzir uma discussão dentro de uma família. Era suficiente uma camisa, um jogo, uma provocação, um resultado. A rivalidade existia antes de qualquer algoritmo. E talvez seja justamente por isso que algumas lembranças pareçam tão fortes: elas não precisavam ser registradas para existir.

​Quando todo mundo virou produtor de conteúdo

​A transformação mais profunda veio depois. A internet deixou de ser apenas um lugar de encontro e passou a ser um ambiente permanente. O celular deixou de ser telefone e virou câmera, televisão, rádio, banco, mapa, jornal, videogame, agenda, biblioteca e escritório. O WhatsApp praticamente substituiu as antigas mensagens de texto no cotidiano de milhões de pessoas. Instagram e TikTok transformaram a relação com a produção de conteúdo.

​Hoje, qualquer pessoa pode criar uma página, publicar uma opinião, produzir um vídeo, comentar uma notícia ou espalhar uma informação para milhares de pessoas. Isso é uma democratização extraordinária da comunicação, mas também tem um preço. A internet está cheia: cheia de opiniões, de vídeos, de notícias, de especialistas, de influenciadores e de gente produzindo conteúdo sobre tudo. E, justamente por isso, está cada vez mais difícil encontrar silêncio.

​Qualquer pessoa pode escrever sobre qualquer assunto, mesmo sem formação ou conhecimento suficiente para fazê-lo. A apuração muitas vezes é substituída pela pressa. A checagem é substituída pelo compartilhamento. A informação é substituída pelo título. O que importa muitas vezes não é estar correto; é chegar primeiro, viralizar, gerar comentário, provocar indignação, alimentar o algoritmo.

​E não é raro encontrar portais tradicionais reproduzindo a mesma lógica das redes sociais, transformando qualquer acontecimento em vídeo curto, chamada apelativa ou conteúdo pensado mais para retenção do que para informação. Até o jornalismo, que deveria ser um espaço de mediação e responsabilidade, passou a disputar atenção em um ambiente construído para impedir que alguém fique muito tempo olhando para uma única coisa.

​Quando fiz meu TCC de jornalismo, a inteligência artificial ainda estava começando a aparecer como ferramenta acessível ao público, mas estava longe da dimensão que possui hoje. Havia algo quase artesanal no processo: era necessário sair, ir para a rua, entrevistar, ligar, pesquisar, levantar dados, conferir documentos, conversar com pessoas, escrever, reescrever, organizar, errar e corrigir.

​Hoje, um simples prompt pode produzir em poucos segundos uma estrutura de trabalho, resumir documentos, sugerir argumentos, organizar referências e até escrever um texto inteiro. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária, mas existe uma pergunta incômoda: o que acontece quando uma ferramenta que deveria auxiliar o pensamento começa a substituir justamente o esforço de pensar? Não é uma questão exclusiva da inteligência artificial, mas sobre o excesso de facilidades.

​A infância também entrou nesse ambiente

​Talvez seja aqui que a nostalgia deixe de ser apenas nostalgia. Porque a questão não é simplesmente que uma geração envelheceu: é que a própria infância mudou.

​Antes, a criança encontrava o mundo antes de encontrar a tecnologia. Hoje, muitas vezes, encontra a tecnologia ao mesmo tempo em que começa a descobrir o mundo. Uma criança pode nascer em uma casa onde o smartphone já está presente, onde a televisão está conectada à internet, onde há videogame, tablet, streaming, redes sociais, aplicativos e inteligência artificial.

​Não é preciso esperar o desenho: ele está disponível. Não é preciso procurar uma brincadeira: há milhares de vídeos oferecendo entretenimento. Não é preciso enfrentar o tédio: basta deslizar o dedo. Não é preciso descobrir sozinho como fazer alguma coisa: existe uma ferramenta pronta para explicar.

​Isso não significa que toda criança de hoje viva assim. Ainda existem crianças que brincam na rua, jogam bola, sobem em árvores, praticam esportes, convivem com a natureza, leem, desenham e inventam suas próprias brincadeiras. Tambem não significa que a tecnologia seja inimiga da infância.

​O problema é outro: a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta utilizada pela criança e passou a fazer parte do ambiente em que ela cresce. E isso é uma mudança gigantesca.

​A criança de décadas atrás precisava encontrar outras crianças para brincar; a de hoje pode se divertir sozinha durante horas. A de antigamente precisava inventar alguma coisa quando estava entediada; a de hoje recebe uma quantidade praticamente infinita de conteúdo. A de antigamente tinha que esperar; a de hoje tem acesso imediato.

​E talvez seja justamente a ausência de espera que esteja produzindo uma das maiores perdas. Esperar ensinava alguma coisa. O tédio ensinava alguma coisa. A frustração ensinava alguma coisa. Errar ensinava alguma coisa. Brincar sem instrução ensinava alguma coisa.

​Uma criança precisava descobrir como empinar uma pipa, como jogar bola, precisava negociar regras e resolver uma discussão entre amigos. Não havia um tutorial para cada momento da vida: havia tentativa e erro, gambiarra, improviso. Quando alguma coisa não funcionava, encontrava-se um jeito. Hoje existe uma solução pronta para quase tudo, e talvez essa facilidade tenha um lado que ainda não sabemos medir completamente.

​O que ficou para trás

​Talvez por isso exista saudade do jornal impresso, do rádio, das radionovelas, das revistas, de esperar, de ir ao interior da Bahia e ouvir o canto dos pássaros… saudade de lugares que já não são exatamente os mesmos. O desmatamento, a urbanização e a transformação do território também mudaram paisagens que pareciam permanentes. Em alguns lugares, aquilo que antes fazia parte da rotina: árvores, córregos, pássaros, tornou-se lembrança.

​Saudade de brincar no umbuzeiro, de bater uma pelada com regras próprias, de ir ao circo no final da tarde, de matar aula para jogar videogame, de passar horas fora de casa sem que ninguém precisasse acompanhar a localização em tempo real. Saudade de uma época em que uma criança podia desaparecer da vista dos adultos por algumas horas e simplesmente voltar para casa depois. Hoje isso parece quase inimaginável em muitos lugares. E talvez não seja apenas a rua que tenha desaparecido; talvez uma parte da infância tenha desaparecido junto com ela.

​Existe uma expressão usada para descrever jovens considerados excessivamente dependentes de facilidades: “geração Nutella”. É uma expressão exaggerated e muitas vezes injusta, porque toda geração enfrenta dificuldades próprias. Mas ela revela uma percepção existente: a de que algumas habilidades cotidianas, antes aprendidas naturally, estão deixando de ser exercitadas.

​Antes, quando alguma coisa dava errado, vinha a gambiarra; hoje, procura-se uma solução no Google. Antes, alguém perguntava para outra pessoa; hoje, pergunta-se ao algoritmo. Antes, uma dúvida podia permanecer por alguns dias; hoje, existe uma expectativa de resposta imediata. Antes, não saber fazia parte da experiência; hoje, não saber parece quase uma falha.

​E talvez seja justamente aí que a nostalgia encontre seu ponto mais profundo. Não é saudade de uma época sem tecnologia, mas de uma época em que a tecnologia ainda não ocupava todos os espaços.

​Antes a gente vivia, hoje sobrevivemos

​“Antes a gente vivia, hoje sobrevivemos” não é uma reclamação sobre ter ficado adulto. Não é simplesmente dizer que a infância parecia melhor porque éramos crianças. É uma crítica à maneira como a experiência de ser criança está sendo transformada.

  • ​Antes, a criança precisava descobrir o mundo; hoje, o mundo chega pronto.
  • ​Antes, era preciso brincar; hoje, é possível consumir brincadeiras.
  • ​Antes, era preciso conversar; hoje, é possível reagir.
  • ​Antes, era preciso procurar informação; hoje, é preciso aprender a sobreviver ao excesso dela.
  • ​Antes, a tecnologia precisava acompanhar a vida; hoje, muitas vezes, é a vida que precisa acompanhar a tecnologia.

​Uma criança não deveria precisar aprender a lidar tão cedo com algoritmos, notificações, exposição, comparação social, publicidade, vídeos curtos, inteligência artificial e um fluxo interminável de informação para simplesmente crescer. Não porque tudo isso seja necessariamente ruim, mas porque uma infância também precisa de espaço para aquilo que não produz nada: o espaço para correr, se sujar, cair, inventar, errar, ficar entediado, conversar olhando nos olhos, passar uma tarde sem fotografar, brincar sem publicar, viver sem transformar cada momento em conteúdo.

​Talvez a grande perda não seja o desaparecimento da bola de gude, da pipa ou do pique-esconde; talvez seja o desaparecimento da necessidade de inventar alguma coisa. Quando tudo está disponível, a imaginação pode deixar de ser uma necessidade.

​E talvez seja isso que cause tanta estranheza ao olhar para trás. Não se sente apenas saudade de uma década, sente-se saudade de uma forma de viver. Uma forma de viver em que o mundo era menor, mas parecia maior.

​Uma televisão tinha poucos canais, mas cada programa parecia um acontecimento. Uma música precisava ser ouvida muitas vezes antes de ser esquecida, e talvez por isso permanecesse. Um jornal precisava ser comprado. Uma revista precisava ser guardada. Uma ligação precisava ser esperada. Um amigo precisava ser encontrado. Uma brincadeira precisava ser inventada. Uma informação precisava ser procurada. Uma tarde precisava ser preenchida.

​Hoje existe acesso praticamente ilimitado a tudo isso e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil simplesmente estar presente.

​A tecnologia continuará avançando e ainda bem. Ela continuará curando doenças, facilitando o trabalho, ampliando o conhecimento, conectando pessoas e criando possibilidades que hoje ainda parecem impossíveis. O problema não é o futuro; o problema é chegar ao futuro levando consigo tão pouco daquilo que fazia a vida valer a pena antes que ele chegasse.

​Talvez não seja necessário escolher entre o passado e o futuro. Talvez seja necessário apenas lembrar que uma criança ainda precisa de uma infância. Uma infância que não seja completamente programada por telas; que tenha espaço para a rua, para a natureza, para outras crianças, para o silêncio, para o tédio e para a imaginação.

​Porque uma pipa não precisava de internet para subir. Uma bola de gude não precisava de aplicativo para começar uma partida. O pique-esconde não precisava de câmera. A bandeira destacada não precisava de conexão. E uma tarde inteira podia passar sem que ninguém soubesse exatamente onde estávamos.

​Talvez não fosse o mundo perfeito, mas era um mundo em que ainda havia tempo para simplesmente viver.

​Antes a gente vivia. Hoje sobrevivemos.

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Jornalista (DRT/MTE 6842/BA), Especialista em Gestão Pública e estudante de ADS. Unindo a sensibilidade da escrita à precisão da tecnologia, construo este portal como um espaço de resistência intelectual e experimentação. Flamenguista, ciclista e cético convicto. Acredito na caridade como prática e na simplicidade como estilo de vida. “Questionar tudo, aprender sempre.”