Vista de caverna subaquática com luz filtrada na água escura (Créditos: Adamy Gianinni)

O barco furado

Sobre conveniência, hipocrisia e a escolha de insistir no erro

Adamy Gianinni
Adamy Gianinni
Editor-chefe
Jornalista (DRT/MTE 6842/BA), Especialista em Gestão Pública e estudante de ADS. Unindo a sensibilidade da escrita à precisão da tecnologia, construo este portal como um espaço...
4 Minutos de leitura
Vista de caverna subaquática com luz filtrada na água escura (Créditos: Adamy Gianinni)

As pessoas estão reclamando. Ouço vozes e gritos. No fundo, há uma escuridão sem nenhum feixe de luz. As paredes são ásperas e, ao mesmo tempo, escorregadias. Ouço passos, mas não vejo ninguém. Sinto um vento frio vindo de lugar nenhum.

Há cheiro de fumaça, mas nada está queimando.

As pessoas parecem feitas de papel: frágeis, descartáveis, substituíveis. Não há esperança na sombra da luz. Não resta dúvida de que caminhar, muitas vezes, não leva a lugar algum. O vácuo é soberano, mas a bolha continua refletindo uma realidade conveniente.

Parece um pesadelo. Mas pesadelos acabam quando acordamos. Este continua.

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Há trevas depois da luz e luz depois das trevas. Esta é uma das poucas certezas que nos restam. A outra é que estamos todos no mesmo barco furado, tentando ignorar a água que entra pelos buracos.

Numa manhã qualquer acordei com os pés dentro da água. A maré havia subido e parte da caverna estava ficando submersa. Parou num nível seguro, sem me afogar. Pelo menos por enquanto.

Não há como sair daqui.

A água está alta demais. Parte da caverna desmoronou. Tenho poucas lembranças do que aconteceu. Recordo apenas o latido de cães, o som de tiros e o momento em que despertei com a cabeça sangrando.

Talvez eu fosse um deles. Talvez ainda seja.

Minhas roupas desapareceram. Estou apenas de sunga, cercado por água e por ossos humanos espalhados ao redor. Restos de pessoas que também acreditaram que encontrariam uma saída.

Entre os ossos há uma carta.

O papel é antigo, mas as palavras sobreviveram ao tempo.

Uma mulher chamada Serafina escreve para alguém que amava. Conta que fugiu para não se casar com outro homem. Nadou até uma ilha próxima e se escondeu numa caverna. Esperava voltar para casa quando tudo se acalmasse.

Mas a maré subiu.
A saída desapareceu.
A comida acabou.
A esperança também.

No fim, restou apenas uma despedida escrita para alguém que talvez nunca a encontrasse.

Ela morreu por amor.

Ao terminar a leitura, sinto um arrepio. A carta não fala apenas sobre uma mulher presa numa caverna. Ela fala sobre todos nós. Sobre escolhas feitas sem medir as consequências. Sobre riscos assumidos em nome de algo que acreditamos ser maior do que nós. Sobre o peso de cada decisão, que nunca desaparece, só é adiado.

Sobre a solidão.
Sobre a espera.
Sobre a fragilidade de qualquer plano.

Mas Serafina, ao menos, não sabia. Nós sabemos.

Os ossos ao meu redor não são um mistério. São um aviso. Eu não sou o primeiro a chegar aqui. E, mesmo assim, entramos.

Vivemos cercados por informações, opiniões, promessas e ruídos. Todos afirmam saber para onde ir. Todos exibem convicções inabaláveis. Todos condenam o desvio, até que o desvio seja o próprio favor. Todos exigem honestidade, até que ela custe alguma coisa.

Reclamamos.
Corremos.
Acumulamos.
Discutimos.
Consumimos.

Mas seguimos no mesmo barco furado.

No fim, a questão não é descobrir se existe uma saída da caverna.

A maré sobe todos os dias, e todos sabemos disso.
Sabemos que o barco está furado.
Sabemos quem o furou, e, às vezes, fomos nós.
Sabemos que o atalho de hoje é o naufrágio de amanhã.
Ainda assim, escolhemos o que é conveniente, porque admitir o erro custa mais caro do que afundar devagar.

Não é a falta de certeza que nos mantém aqui.
É a certeza que preferimos ignorar.

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Jornalista (DRT/MTE 6842/BA), Especialista em Gestão Pública e estudante de ADS. Unindo a sensibilidade da escrita à precisão da tecnologia, construo este portal como um espaço de resistência intelectual e experimentação. Flamenguista, ciclista e cético convicto. Acredito na caridade como prática e na simplicidade como estilo de vida. “Questionar tudo, aprender sempre.”