Brasil quer voz ativa no futuro da Web: CGI.br e NIC.br lançam programa para estudar o impacto da Inteligência Artificial

Iniciativa quer colocar o país entre os protagonistas das discussões globais sobre a IA na Web, financiando pesquisas e garantindo presença brasileira nos grupos do W3C

Adamy Gianinni
Adamy Gianinni
Editor-chefe
Sou jornalista e escritor. Estudei mídias digitais e gestão pública para entender como o poder se disfarça na tecnologia. Agora, no 2º semestre de Análise e...
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(Créditos: Freepik)

A corrida global pela regulação e padronização da Inteligência Artificial na Web ganhou um novo capítulo no Brasil. O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) lançaram o Programa de Incentivo à Pesquisa sobre o Impacto da IA na Web e Participação Brasileira no W3C, uma iniciativa que pretende unir ciência, tecnologia e estratégia internacional.

A proposta vai muito além de apoiar pesquisas acadêmicas. Ela mira o fortalecimento da presença brasileira nos debates do World Wide Web Consortium (W3C) — o grupo global que define os padrões técnicos da Web. As inscrições ficam abertas até 2 de fevereiro de 2026, e o resultado deve sair em março do mesmo ano, no site cgi.br.

Por que isso importa

A Web está mudando de forma acelerada. Deixou de ser apenas uma rede de páginas e virou um ecossistema onde agentes de IA executam tarefas, interagem com usuários e até criam conteúdos de forma autônoma — um conceito já chamado de “Agentic Web”.

Segundo Vagner Diniz, gerente do Ceweb.br (Centro de Estudos sobre Tecnologias Web, vinculado ao NIC.br), “o Brasil precisa estar na vanguarda, não apenas pesquisando, mas também contribuindo ativamente para a criação dos padrões técnicos que moldarão o futuro da Web”.

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Traduzindo: ou o país participa do debate global sobre o que a IA pode (ou deve) fazer na internet, ou ficará apenas consumindo as decisões tomadas por outros.

O que o programa oferece

Três grupos de pesquisa, com até quatro integrantes cada, serão selecionados. O pacote de apoio inclui:

  • Bolsas mensais por até 36 meses — de R$ 2.100 (para mestrandos) a R$ 5.200 (para coordenadores doutores);
  • Filiação da instituição ao W3C, garantindo participação direta nos grupos de trabalho internacionais;
  • Custos de viagens e inscrições em conferências como o TPAC (W3C Technical Plenary & Advisory Committee Meetings);
  • Apoio à publicação internacional, em eventos como TheWebConf, WSDM e ACM CHI.

As propostas serão avaliadas por uma Comissão de Avaliação formada por representantes do CGI.br, NIC.br e especialistas externos. A diversidade de gênero, raça e região será um dos critérios da seleção.

É um investimento estratégico para garantir que a perspectiva brasileira influencie o desenvolvimento global da Web”

afirmou Percival Henriques, conselheiro do CGI.br e coordenador geral do programa

Temas que interessam (e preocupam)

Os grupos deverão explorar tópicos que vão muito além do código:

  • Fundamentos técnicos da Agentic Web;
  • Protocolos de agentes de IA e controle de bots e crawlers;
  • Governança de dados e segurança;
  • Comportamentos emergentes dos usuários nesse novo ambiente digital.

Esses temas tocam diretamente nas discussões sobre ética da IA, transparência algorítmica e autonomia das máquinas, tópicos que têm pressionado governos e empresas de tecnologia em todo o mundo.

Uma aposta política e científica

O CGI.br e o NIC.br vêm tentando, nos últimos anos, posicionar o Brasil como um ator relevante na governança da Internet. A nova chamada é mais uma tentativa de inserir o país nas decisões técnicas que hoje moldam a própria infraestrutura digital global.

Vale lembrar que o W3C, organização criada por Tim Berners-Lee, inventor da Web, é o espaço onde se definem padrões como HTML, CSS, protocolos de acessibilidade e, mais recentemente, diretrizes para sistemas baseados em IA.

Sem presença ativa ali, o Brasil corre o risco de ficar apenas implementando tecnologias pensadas fora daqui — um problema que já conhecemos bem.

Serviço

Programa: Incentivo à Pesquisa sobre o Impacto da Inteligência Artificial na Web e Participação Brasileira no W3C
Inscrições: até 2 de fevereiro de 2026
Divulgação dos resultados: a partir de março de 2026
Submissão de propostas: [email protected]
Edital completo: cgi.br/pagina/apoio-pesquisa-impacto-ia-web

Análise final

O movimento do CGI.br e do NIC.br é mais do que oportuno — é urgente. Enquanto gigantes da tecnologia disputam a primazia na criação de IA generativas e sistemas autônomos, o Brasil ainda luta para formar pesquisadores capazes de atuar nas fronteiras dessa revolução.

Este tipo de programa não resolve tudo, mas dá um recado claro: ou participamos da construção das regras da IA, ou seremos apenas usuários de um futuro decidido por outros.

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Sou jornalista e escritor. Estudei mídias digitais e gestão pública para entender como o poder se disfarça na tecnologia. Agora, no 2º semestre de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, investigo o lado técnico da história. Escrevo sobre política, mídia e tecnologia com independência, ceticismo e zero paciência para o óbvio.