Ao contrário do discurso adotado durante a campanha presidencial, a política externa de Donald Trump não caminhou na direção do fim das guerras. A trajetória recente sugere outra lógica: a ampliação de conflitos e tensões geopolíticas sob controle estratégico dos Estados Unidos.
A sequência de acontecimentos permite uma leitura que conecta diferentes episódios dentro de um mesmo tabuleiro. O ponto inicial está na Venezuela. A intervenção americana nunca foi, necessariamente, sobre libertar o povo do regime de Nicolás Maduro, nem exclusivamente sobre combate ao narcotráfico ou defesa da democracia. O elemento central sempre foi mais pragmático: petróleo.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas do mundo. Controlar, direta ou indiretamente, esse recurso significa possuir uma carta estratégica relevante no mercado energético global. E essa carta ganha ainda mais valor quando observada dentro do cenário seguinte: o confronto com o Irã.
Com a Venezuela sob influência americana no setor petrolífero, abriu-se espaço para um movimento mais ousado no Oriente Médio. A ofensiva contra o Irã surge dentro dessa lógica mais ampla. Não se trata apenas de divergências políticas com o regime iraniano, nem exclusivamente de direitos civis ou do programa nuclear, temas frequentemente usados como justificativa diplomática.
O fator central continua sendo geopolítico e energético. O Irã é um grande produtor de petróleo e, mais importante ainda, possui controle estratégico sobre o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta.
Ao reagir militarmente e bloquear a passagem no estreito, Teerã produziu exatamente o efeito esperado em qualquer conflito energético: a disparada do preço do petróleo. Nesse momento entra a importância da Venezuela dentro dessa equação. Enquanto o mercado global enfrenta escassez e volatilidade, os Estados Unidos passam a ter influência sobre uma das maiores reservas disponíveis fora do Oriente Médio.
Outro elemento relevante nessa equação é Israel. O Irã é visto pelo governo israelense como a principal ameaça regional. Enfraquecer Teerã significa, para Israel, reduzir o maior obstáculo à sua projeção de poder no Oriente Médio. Nesse contexto, a convergência de interesses entre Washington e Tel Aviv torna-se evidente.
Há quem questione a racionalidade dessas decisões e até a estabilidade mental de Trump diante da escalada militar. No entanto, é importante lembrar que nenhuma operação dessa magnitude ocorre isoladamente. As ações contam com respaldo institucional dentro dos Estados Unidos, envolvendo Congresso e estruturas do próprio sistema político americano.
Isso não significa que governos anteriores tenham sido pacifistas. A diferença está no método. Durante a gestão de Barack Obama, por exemplo, a diplomacia foi utilizada com mais intensidade, embora os interesses estratégicos americanos nunca tenham deixado de existir.
No cenário atual, enquanto Washington aposta em demonstrações de força militar, outras potências observam com cautela. China e Rússia evitam uma escalada direta entre grandes potências. O apoio ocorre, quando ocorre, por vias diplomáticas ou por cooperação estratégica indireta. Para ambas, um conflito aberto entre potências nucleares simplesmente não compensa.
Outro fator que começa a alterar o equilíbrio militar é o custo da guerra. Os Estados Unidos operam equipamentos extremamente caros. O Irã, por sua vez, tem apostado em tecnologias mais baratas, como drones e sistemas de ataque de rápida reposição. Esse tipo de estratégia assimétrica já obrigou Washington a rever parte de suas operações.
A questão inevitável é o que acontece depois.
Se o Irã cair militarmente ou se os custos econômicos da guerra se tornarem insustentáveis para os Estados Unidos, o tabuleiro geopolítico continuará se movendo. Surgem então especulações sobre possíveis novos focos de tensão.
A Groenlândia já apareceu em discursos políticos no passado recente, mas um confronto ali esbarraria diretamente na OTAN e em aliados europeus. Seria uma crise internacional de proporções imprevisíveis.
Cuba surge como outra possibilidade de pressão estratégica. A ilha, historicamente alvo de tensões com Washington, tem importância militar pela sua localização no Caribe. Do ponto de vista econômico, porém, oferece poucos recursos naturais relevantes para exploração.
Nesse contexto aparece um movimento que chama atenção: a tentativa de classificar facções criminosas latino-americanas como organizações terroristas. No caso do Brasil, cita-se com frequência o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Essa classificação, se oficializada internacionalmente, abriria brechas jurídicas para ações extraterritoriais sob o argumento de combate ao terrorismo. Ainda assim, uma intervenção militar direta no Brasil seria altamente improvável. O país possui dimensões continentais, peso econômico regional e relações diplomáticas que tornariam qualquer ação desse tipo extremamente complexa.
Além disso, o próprio cenário recente já demonstrou uma lição importante: o Irã não é a Venezuela. E o Brasil não é nem a Venezuela nem o Irã.
Em outras palavras, há limites claros para o avanço de qualquer estratégia militar global. No Brasil, como se diz no jargão popular, o buraco seria muito mais embaixo. Uma escalada desse tipo envolveria rapidamente outras potências e transformaria um conflito regional em uma crise internacional de grandes proporções.
Diante de um cenário global cada vez mais instável, a pergunta que permanece não é apenas sobre quem vence uma guerra, mas sobre até onde as potências estão dispostas a ir antes que o custo político, econômico e humano se torne alto demais para todos os envolvidos.
💬 Continue a conversa
Quer comentar, sugerir temas ou debater ideias? Participe dos canais e acompanhe as atualizações: