Quando o herói morre e o jogo não acaba: uma crítica amarga a Red Dead Redemption 2

Adamy Gianinni
Adamy Gianinni
Editor-chefe
Sou jornalista e escritor. Estudei mídias digitais e gestão pública para entender como o poder se disfarça na tecnologia. Agora, no 2º semestre de Análise e...
5 Min leitura
(Créditos: Rockstar Games)

Red Dead Redemption 2 costuma ser tratado como um monumento da indústria. E, honestamente, não discordo. É um jogo deslumbrante, tecnicamente impecável e com um nível de imersão que parece mais cinema do que videogame. Ainda assim, por trás de toda essa grandiosidade, existe uma experiência que nem sempre conversa com quem chega esperando algo mais direto, como eu, acostumado ao ritmo elétrico de Far Cry. E foi nessa expectativa que a jornada de Arthur Morgan acabou me deixando com um gosto agridoce.

Antes de tudo, sim, há spoilers. E pesados.

A abertura é lenta, quase arrastada, lembrando Far Cry 4 e 5 naquele ritual de tirar o controle da mão do jogador para estabelecer o drama. Funciona, mas cansa. E, convenhamos, certas repetições poderiam ter sido opcionalmente ignoradas. Quem já esfolou um cervo de manhã, outro à tarde e um terceiro à noite me entende. A vida adulta não perdoa: jornalista não pode ficar fazendo hora extra para assistir animação de carneiro sendo cortado.

Do ponto de vista técnico, não tenho críticas. Os cenários são tão bonitos que parecem desafiar a realidade física. NPCs reagem de modos inesperados. A trilha sonora encaixa como luva. É um primor. O ponto é que tudo isso só se sustenta se você embarcar totalmente na lógica do jogo. E aí está o cerne do meu estranhamento: eu entrei em Red Dead Redemption 2 sem saber que ele é, na prática, o prólogo de Red Dead Redemption 1. Fugi de fóruns, vídeos e teorias justamente para não estragar a experiência. Mas acabei perdendo um contexto importante.

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Decidi começar como vilão. Queria ser o fora-da-lei raiz, aquele que o mapa inteiro aprende a temer. Só que o jogo não deixa isso barato. A doença de Arthur, as figuras que cruzam o caminho dele, as situações moralmente insustentáveis… tudo te empurra para longe da maldade gratuita. Não consegui seguir firme no papel de desgraçado profissional. Quando percebi, já estava ajudando indígenas, evitando explorar gente vulnerável e recuperando honra sem querer. Arthur cresce. E você cresce junto.

Imagem capturada no jogo Red Dead Redemption 2 (Créditos: Rockstar Games)
Imagem capturada no jogo Red Dead Redemption 2 (Créditos: Rockstar Games)

A morte dele não chega a ser surpresa — a tuberculose dá o aviso com antecedência — mas eu esperava algo mais grandioso. No meu final, Arthur ajuda John, cai exausto, olha o sol e desaparece. Um fim digno, melancólico e potente. E, justamente por isso, eu esperava que ali fosse o ponto final.

Mas não. Vem o epílogo. Um epílogo que não avisa que está sequestrando o protagonismo da história. E foi aí que minha frustração apareceu de verdade.

Assumir John Marston logo após aquela última cavalgada de Arthur quebra o impacto emocional que o jogo tinha acabado de construir. A cena final do protagonista é forte, simbólica, emocionante. Só que, em vez de deixar isso ecoar, o jogo engata uma segunda parte com missões domésticas que soam quase como anticlímax. Faz sentido narrativo, claro. Mas narrativamente coerente não é sinônimo de satisfatório. E, até chegar ao acerto de contas com Micah — confesso, uma vingança deliciosa — precisei atravessar uma sequência de tarefas que, para mim, drenaram boa parte da intensidade do que havia acabado de viver.

Sim, eu já sabia que Arthur morreria. O spoiler veio antes, inevitável. Só imaginava que seria o fechamento da história, não o gatilho para outra campanha. No fim das contas, tudo se encaixa perfeitamente para quem já jogou Red Dead Redemption 1. Mas, para quem não tem esse contexto prévio, a transição soa brusca, quase um desvio de rota.

Imagem capturada no jogo Red Dead Redemption 2 (Créditos: Rockstar Games)
Imagem capturada no jogo Red Dead Redemption 2 (Créditos: Rockstar Games)

Red Dead Redemption 2 continua sendo um jogo extraordinário. A história é rica, profunda e, em muitos momentos, devastadora. Minha crítica não é sobre a qualidade da obra, mas sobre a decisão de prolongá-la depois do que, na minha visão, seria um encerramento perfeito. Se a última respiração de Arthur tivesse sido o ponto final, a jornada dele teria sido ainda mais impactante. E, no fim, acho que o jogo teria ganhado mais ao parar enquanto ainda estava no auge.

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Sou jornalista e escritor. Estudei mídias digitais e gestão pública para entender como o poder se disfarça na tecnologia. Agora, no 2º semestre de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, investigo o lado técnico da história. Escrevo sobre política, mídia e tecnologia com independência, ceticismo e zero paciência para o óbvio.